Para mim, está claro a impotência
do Estado em garantir uma sociedade justa, igual e com ensino de qualidade.
O ministro Luiz Fux disse sobre
seu voto a favor que "A opressão racial dos anos da sociedade escravocrata
brasileira deixou cicatrizes que se refletem no campo da escolaridade. A
injustiça do sistema é absolutamente intolerável".
Já Ayres Britto disse durante o
voto que os erros de uma geração podem ser revistos pela geração seguinte e é
isto que está sendo feito.
Pois bem, intolerável é o ensino
de base que é inexistente nesse país.
Intolerável é tentar consertar
erros de uma geração com medidas que não tratam o problema na outra.
Intolerável é ler pesquisa da FGV que aponta
que 40% dos jovens entre 15 e 17 anos que abandonam a escola o fizeram porque
consideraram a escola desinteressante.
Intolerável é um país que se
vangloria por estar em plena ascensão, mas que pode travar esse
"crescimento" por não possuir profissionais qualificados.
Estudei em colégio público (1º e
2º anos) e particular (colégios de ponta do RJ e PE). Vi não só a maioria
numérica de estudantes negros e de pessoas de classe menos privilegiada de uma (escola
pública) como a maioria maciça de brancos e de classe mais privilegiada na outra.
Vi a diferença de ensino muito mais favorável da escola particular em relação à
pública.
Lembro de ter passado quase 6
meses no meu segundo ano sem aulas de português. Isso mesmo. Quando deveria
estar me preparando para o vestibular eu não tinha aulas de português. No
primeiro ano, minha professora de português, Terezinha, passava várias e várias
aulas fazendo ditado. E ela estava corretíssima. Saber escrever português é o
mínimo que alunos que estão iniciando o Ensino Médio devem saber. Ela enxergava
uma deficiência nos alunos que vinha desde o começo do ensino fundamental.
Se mal tínhamos português imagine
o inglês. Foram dois anos estudando verbo "to be". Nem comento sobre
as professoras. Lastimável.
Muitos dos professores eram
limitados e os que poderiam avançar um pouco mais não o faziam porque os alunos
simplesmente não conseguiriam acompanhar. Nunca fui uma sumidade em matemática,
muito pelo contrário. Fui para a recuperação na 6ª, 7ª e 8 ª. No primeiro ano,
no público, já havia passado no 2º bimestre. Lá a média era 5 e se você
alcançasse 20 pontos no ano passaria por média ao final do ano.
O vestibular era mito na escola
pública em que estudei. E digo pelos amigos de outras escolas, primos, etc. que
naquelas não era muito diferente.
Hoje, de todas as pessoas que
conheci e\ou tive algum contato e recente notícia apenas uma, fora eu, se
formou. Outra está na faculdade ainda e outro trancou a segunda - esses são
dois irmãos que os pais são professores. Universidade Pública apenas eu.
Passei no vestibular muito mais
pela boa educação de base que tive do que pelo meu ensino médio.
Concordo que o sistema por
meritocracia seja o melhor para definir aqueles que entram na faculdade.
Concordo também que em um país tão desigual como o nosso a tendência é que apenas os estudantes que obtiveram o melhor ensino até o ensino médio é que, em sua grande maioria, entrarão na faculdade. E isso acontece com os alunos de pais com maior poder aquisitivo e que podem colocar seus filhos em melhores escolas. É um ciclo.
Concordo também que em um país tão desigual como o nosso a tendência é que apenas os estudantes que obtiveram o melhor ensino até o ensino médio é que, em sua grande maioria, entrarão na faculdade. E isso acontece com os alunos de pais com maior poder aquisitivo e que podem colocar seus filhos em melhores escolas. É um ciclo.
O choque de realidade é imenso. Mas
para quebrar esse ciclo e tornar as coisas mais iguais não adianta o governo
querer consertar um erro cometido durante toda a vida acadêmica dos alunos com
medidas forçadas no meio do percurso.
O cidadão que sempre obteve
educação de qualidade jamais precisará de cota.
E eu, como pai e cidadão, se com
o dinheiro do meu trabalho pagar um ensino de qualidade para a minha
filha - porque mesmo pagando meus impostos o Estado não é capaz de manter um
ensino minimamente qualificado - posso ver minha filha obter nota para entrar
em uma universidade pública mas não ficar com a vaga só pelo fato de ela não
ser considerada de determinada cor ou classe social?
É sobre isso que versa o
Princípio da Igualdade presente em nossa Constituição? É tapando o Sol com a
peneira que o país vai tratar seus cidadãos?
Ora, não é dever do Estado
oferecer educação de qualidade? A população paga os seus impostos, o governo não
cumpre com suas obrigações e para tentar corrigir suas falhas cria um sistema
de cotas?
Ser branco, negro, pardo, índio,
rico ou pobre não deve ser nunca medida que decida a entrada de cidadãos seja
lá onde for. Não acredito que escolhas baseadas nisso resolva questões sociais.
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